terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O perfume



Dia 24 de dezembro, 11h.

Daqui a 5 horas as lojas vão fechar, apesar da insistência de alguns clientes que ficarão lá dentro ainda tentando escolher algum presente. Eles vão implorar por “mais um minutinho”  enquanto os vendedores trocam de roupa correndo, para pegar o ônibus e chegar em casa a tempo da ceia.

Alheio ao desespero das inacreditáveis "compras de última hora", um senhor toma um café em um balcão segurando apenas uma diminuta sacola da loja de perfumes caros. Nela está o frasco de perfume francês com que presenteia sua mulher há anos. Dezenas de anos. 

É o único presente que ele compra. De todos os outros, ela se ocupa.  Assim como se ocupa dos presentes de aniversário, das gentilezas com os amigos, de fazer enxoval quando nasce um neto ou de mandar corbeilles aos enterros. A roupa bem passada, a calça com a bainha feita, as meias com elásticos em dia... De tudo ela cuida. Os óculos que ele usa têm lentes novas porque ela mandou trocar. De tudo mesmo... ela cuida.

Ele vai entregar o presente mais tarde e, posso apostar, vai beijá-la na testa. Talvez, depois de algumas taças de vinho, lhe dê um selinho quando os netos gritarem “beija, beija, beija”.

“É um casamento de outra época”, você vai me dizer. Será que isso explica tudo?

Para alguém esse homem guardou suas emoções; suas alegrias, medos, tristezas, sua raiva... seu amor. Dele, tudo o que a mulher ganhou foi perfume de francês no Natal, rosas vermelhas no aniversário e bombom de cereja da Kopenhagen na Páscoa. Talvez ela não precisasse de presente algum, ou que ele se preocupasse com qualquer data, se ele tivesse algo além de formalidades para lhe oferecer.

Se você perguntar à essa mulher hoje se é feliz assim, ela garantirá que sim. Vai apontar para a mesa farta, a família unida, para os netos lindos... Mas é mentira.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Carregue menos peso; encare suas escolhas



- Epi... o que, doutor?
- Epicondilite medial. Também conhecido como "cotovelo de golfista"
- Pelo jeito quem não joga golf também sofre dessa inflamação no cotovelo, né?
- Sim. Uso de mouse, uso celulares com função touch... Também podem causar a lesão. Você joga Candy Crush?
- Não, doutor. Desse vício escapei. Estou limpa desde que joguei todas as fases do Angry Birds.
- Tenho atendido muita gente  do Candy Crush...
- Sei...
- Outro fator que costuma agravar essa inflamação é bolsa pesada. Posso segurar a  sua?
- Claro
(Pausa dramática)
(Cara de choque)
- O tratamento é gelo, anti-inflamatório e deixar em casa metade do que você carrega na bolsa.

Na porta do consultório, a espera do elevador, eu já estava pensando o que ficaria de fora da bolsa; minha casa portátil. Não gosto de ser pega desprevenida por isso sempre andei munida do que se pode precisar a qualquer momento: lenço descartável, álcool gel, pasta e escova de dentes, caneta que tira manchas, alfinete de segurança, farmacinha básica, filtro solar, grampos, fio dental, caderneta de anotações, caneta, pen-drive, creme para as mãos, maquiagem... Além de carteira, óculos escuros, celular pessoal, celular funcional, carregador de celular, carteira de documentos do carro, chaves e crachá da empresa.

De qual desses itens você poderia abrir mão? Individualmente, nada disso pesa. Mas o kit "pronta pra tudo" é puxado; em vários sentidos.

Por onde começo então? Que diferença faz tirar 4 band-aids da bolsa?! É preciso começar mesmo por coisas que pareçam insignificantes.

A caixa dos óculos escuros foi substituída por uma bolsinha de pano, o carregador de celular saiu, já que tenho um em casa, outro no trabalho e um terceiro, no carro. Caderneta de anotações saiu porque tenho a opção de tomar notas no celular. Álcool gel saiu, mas depois voltou. O filtro solar se multiplicou e agora também tenho 3 também: casa, trabalho e carro. Pasta e escova de dentes ficaram em definitivo no trabalho, onde costumo almoçar. E a necessaire foi divida em duas: maquiagem e remédios. Mas não funcionou.

Tira tudo, espalha em cima da mesa e escolhe. Quem precisa de 3 batons? Remédio para alergia eu só uso uma vez ano...

Cheguei a uma necessaire menor, com maquiagem básica, lixa de unha, band-aids, álcool gel e remédio para dor de cabeça. Se arrumá-la bem direitinho, talvez caiba o creme para as mãos... 

Vamos ver como fica. Só existe um jeito de carregar menos peso: encarando suas escolhas.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Porque hoje senti saudade de mim




Queen em Montreal

Esse é considerado o maior show da carreira do “Queen” (link acima). Aconteceu em 24 de novembro de 1981 em Montreal, no Canadá. Exatamente nessa data, dez anos depois, Fred Mercury morreu. Quem diria que seria tão rápido? E quem diria que uma dia eu sentiria tanta saudade de algo que não vivi?

Tinha 10 anos nessa noite e Montreal fica a mais de 8 mil quilômetros da minha casa. Dessa época, minha memória musical guarda um pop-brega-nacional que tocava nas rádios e no programa do Chacrinha. Não prestei atenção nesse homem que desfilava no palco como um Super Homem pós-moderno muito antes da modernidade acontecer.

O Queen já chegou pra mim em CD.  Então sou uma fã meio constrangida; não sou “raiz”, não “conheci antes de todo mundo”, não... sei lá. Aprendi as músicas quando ninguém mais falava deles e quando – infelizmente – não haveria mais chance de vê-los tocando.

Amo tudo nessas imagens. O improviso do início, a música, a letra, a calça branca justinha quando todos os roqueiros se apresentavam de preto, a voz, os copos de cerveja, o balé com o microfone e os punhos cerrados no fim.

Não me atualizei musicalmente. Algumas coisas me agradam de ouvido, mas não sei os nomes, não acompanho, não compro CD, não baixo música, não vou a show. Pena. Falta de tempo? De interesse? Não dá para estar por dentro de tudo. Terei oportunidade de rever isso a medida que meu filho for crescendo.

Ele me apresentou à Galinha Pintadinha e eu retribui com o Queen. 

“Então isso é o Rock n´Roll, mãe?” 

Respondi que sim. E ele me pediu para tocar de novo. Vai chegar o momento em que ele me surpreenderá com alguma novidade, mas, por enquanto, me divirto no século passado.

Jovens senhores e jovens senhores, meet the Queen.

Esse será o som da minha noite. Porque, como diz minha amiga Cristiana Sousa Cruz, hoje senti muita saudade de mim.

domingo, 26 de maio de 2013

O perfume e a evasão de privacidade



Já troquei de lugar em restaurante para não ter que aguentar o perfume da cidadã da mesa ao lado. Já troquei de lugar no ônibus, já saí de um consultório médico abandonando o tratamento porque a médica usava perfume forte!

Muitas mulheres (tenho a impressão de que é mais frequente com as mulheres) não entendem que você usa perfume para você e para as pessoas com quem você tem intimidade: amigos que vão te abraçar e beijar e o namorado que vai cafungar o seu cangote.

Se eu, que estou a mais de 60 cm de distancia sinto o seu perfume, isso é um ataque, uma agressão, um exagero. Eu posso não gostar de perfume (gosto de poucos), eu posso estar com dor de cabeça, eu posso simplesmente não querer essa informação.

Quem leu "O Perfume", do Patrick Süskind? "...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras... Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração".

sábado, 9 de março de 2013

A origem dos ovos de Páscoa






Uma paixão que não mudou com a idade foi pelo chocolate. Meu gosto sim; se adaptou a um chocolate mais amargo - melhor para a saúde e mais "recheado" de informação. Mas continuo fascinada pelo colorido da Páscoa e, numa pesquisa que virou livro, descobri a origem deste costume. 

A Páscoa é o Natal dos chocolates. É quando a indústria mais vende, os fabricantes lançam suas novidades e fazem suas apostas. Existem pequenas fábricas brasileiras em que as vendas na Páscoa representam 80% do faturamento anual.

Em muitas culturas antigas, ocidentais e orientais, o ovo era um presente comum, em geral, distribuído em festas pagãs que marcavam o início da primavera, que no hemisfério norte começa em março.  Nas mitologias anglo-saxã e germânica, a deusa da primavera e do renascimento chama-se Ostera (“Páscoa”, em inglês, é Easter, e, em alemão, Ostern).

Em tais festas pagãs, os ovos eram pintados com motivos que faziam alusão à natureza, como flores, frutos e animais.  Em algum momento, esses ovos passaram a ser esvaziados e preenchidos com confeitos.

Entre os séculos XVII e XIX, os nobres europeus presenteavam amigos e parentes com ovos feitos de metais nobres e incrustados com pedras preciosas. Um grande artista dessa Páscoa requintada foi o joalheiro russo Peter Carl Fabergé (1846-1920), que ganhou celebridade após receber encomendas dos czares da Rússia.

Porém, retornando ao mundo plebeu, o ovo de chocolate, de acordo com uma das versões mais correntes, foi uma invenção inglesa – embora a França dispute essa honra –surgindo assim que a tecnologia de fabricação permitiu que se moldasse o chocolate. Os ovos de Páscoa, que eram preenchidos com doces, passaram a ser inteiramente comestíveis.

Essa e outras histórias sobre o chocolate estão no livro "Chocolate, por que gostamos tanto?", meu e do André Modenesi.
Clique para comprar o livro


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um livro; duas histórias




 "A Árvore Generosa", de Shel Silverstein, traduzido no Brasil pelo Fernando Sabino, foi o primeiro livro que li sozinha; assim que fui alfabetizada. Guardo a edição que ganhei em 1977 com dedicatória da professora Vera Lúcia Alves: "eu sempre quis te ensinar mais do que palavras"... (suspiros)

Esse livro sempre me fez pensar sobre entrega e sobre limites. Em alguns momentos da vida somos meninos que tudo querem e em outros, árvores que entregam tudo o que têm a meninos gulosos, mesmo que em prejuízo próprio.

O livro foi reeditado há poucos anos. E comprei um novo exemplar bem animada para ler para minha sobrinha. Ela não gostou. "Tia, porque a árvore deu tudo para o menino e não ficou com nada para ela!? Tá errado isso. E ele não pensou nela? E ele cortou a árvore?", se indignou.

Outros anos se passaram e esta semana li o livro para meu filho, 4 anos. A reação também não foi boa. "Mãe, esse livro é triste e cortar árvore é ruim para o planeta. Não quero mais ler essa história", resolveu.

A leitura é outra. Do mesmo livro, das mesmas palavras, ilustradas com os mesmos desenhos, mas num mundo muito diferente.

Tia Vera me ensinou mais do que palavras. Me deu suas maças, seus galhos em que me balancei e seu tronco que virou barco para que eu pudesse navegar. E agora aprendo o que não se ensinava a uma menina em 1977: não cortar árvores e estabelecer limites menos elásticos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sonhar não custa nada


Meu filho acorda me contando uma história confusa e fantástica.

- Filho, você sonhou.
(pausa dramática)
- Sonho é quando a gente vê as coisas de olho fechado?
- Isso, filho, podemos dizer que sim.
- E por que quando a gente abre o olho o sonho some?
- Porque o sonho estava só na sua cabeça, enquanto você dormia. Quando você acorda, abre os olhos e vê o que está acontecendo de verdade.


Ele sorriu um pouco confuso, deu o assunto por encerrado e saiu arrastando sua cara gostosa de sono.

Eu queria ter continuado. Queria dizer a ele que o sonho é nossa válvula de escape; de coisas boas, de coisas ruins, proibidas... De medos, de fantasias... É uma forma de viver isso tudo sem censura, sem filtro. Sonho a gente não escolhe. Nossa cabeça sai para passear enquanto nosso corpo está entregue ao sono. E aí vem um filme de roteiro louco, embaralhando nossos desejos mais fortes com tudo o que escondemos durante o dia.

Os sonhos nos ajudam a organizar os pensamentos, nos denunciam, nos contam, nos revelam, nos fazem pensar, nos angustiam, nos divertem, nos fazem criar! Gostaria que ele refletisse sobre o privilégio que é sonhar. E nos lembrarmos do que sonhamos depois que acordamos.

Queria falar para ele de Freud, de José no Egito interpretando os sonhos do faraó, contar que os esotéricos acreditam que nossa alma vai a outros lugares enquanto dormimos, queria cantar o samba enredo na Mocidade Independente de Padre Miguel de 1992... "Sonhar não custa nada. O meu sonho é tão real. Mergulhei nessa magia. Era tudo que eu queria para esse carnaval..."

Mas ele se foi... de pijama, descabelado, assistir ao desenho animado na televisão. E deixou minha ansiedade de mãe aqui nesse post. Obrigada, meu blog, por ter poupado meu filho desse surto materno.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O problema é que a academia de ginástica não gosta de mim



- Te espero na sexta-feira então
- Não espere. Essa aula não é o que eu imaginava.
- Você nunca tinha feito aula de alongamento?
- Já sim, mas deste jeito, coreografada... Achei uma loucura.
- Mas é tão legal!
- Não acho. Tenho muita dificuldade em acompanhar coreografia.
- Ah, você consegue!
- Não vale o esforço mental; eu não me divirto.
- No início é um pouco difícil.
- Olha, difícil não rola. Já tenho muita coisa difícil para resolver fora da academia.
- Mas a aula fica linda assim!
- Para mim é puro constrangimento. Fujo de aula coreografada desde a aeróbica dos anos 80.
- Mas com o tempo você aprende.
- Não tenho tempo. E, depois dos 40 anos, me dou ao luxo de não me obrigar a aprender certas coisas. Obrigada pela tentativa, de qualquer forma.

Respiro fundo, peço um suco na lanchonete da academia, mas o que eu queria mesmo era uma tomar um vodca. Uma mulher encosta ao meu lado e diz baixinho:
- Você achou difícil? Foi a aula dela mais fácil que já fiz!

Eu não gosto de academia, mas definitivamente, ela também não gosta de mim.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

No guarda-roupas 4 - O extermínio



Desde os 30 já vinha evitando algumas peças que não me favoreciam. Quando se tem 20 anos, pode-se usar tudo. Se for magra então, tu-do mesmo. Pena que quando eu tinha essa idade me faltavam confiança e repertório.

Nesse ano que passou, eliminei algumas peças em definitivo. Não servem para mim e vou explicar o porquê. Importante dizer que resolvi o que não servia olhando para o espelho. Ninguém mandou; ninguém disse que deveria ser assim ou assado, não estava escrito em nenhum guia de estilo. Então, se olhe no espelho e resolva quem você quer ser - ou, pelo menos, parecer que é.

Não uso mais:

- Joelho de fora - o joelho cai, a pele em volta dele enruga, e prejudica a aparência do rosto que estou lutando para manter com poucas rugas e manchas.
- Camiseta engraçadinha - chama muito a atenção, todo mundo olha e quando esse olhar sobe para o rosto, encontra uma senhora, mãe de família. Estranho.
- Unhas grandes e esmalte escuro - meus dedos são curtos e quando usava esmalte escuro, eles pareciam mais curtos ainda. Unhas grandes simplesmente acho feio e anti-higiênico.
- Botas com saia - acho que deixa quem é baixinha atarracada e dá um ar meio infantil.
- Biquíni estampado - Estampa engorda até no biquíni. Meus biquínis agora são pretos e azuis marinho.
- Sapatilhas com laçinho - teen
- Braço de fora - tenho o braço gordo. Desproporcional.

Não uso, mas gostaria:

- Colar de pérolas - acho lindo, mas envelhece, não?. Procuro um que tenha algum estilo.

E me dei conta que há coisas que nunca usei, seguindo nas duas a mesma lógica:

- Jeans rasgado - me explica: como é pagar por uma roupa que já vem estragada?
- "Tie dye" - e como é pagar por uma roupa que já vem manchada?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Não olhe agora, mas...





... o Milton Nascimento está atrás de você.
- Aqui no teatro?!
- É. Sentou-se discretamente na última fila, na sua diagonal esquerda.
- O que eu faço agora? Olho?
- Olha, discretamente.
- Discretamente!? Deixa ver se eu entendi. O Milton Nascimento está sentado atrás de mim no teatro e eu tenho que fingir naturalidade?
- Não sabia que você era tão fã dele.
- Não sou "tão fã". Mas o Milton Nascimento não anda por aí... Você já ouviu alguém comentar que tenha encontrado, visto, esbarrado no Milton Nascimento?
- É. Ele é bem na dele. Mas você vê tanto artista no seu trabalho...
- Mas não vejo o Milton Nascimento.
- É... Ele não caminha no calçadão de Ipanema, nem bebe chopp na Gávea.
- E a gente vai ficar fingindo que é a coisa mais natural do mundo sentar-se ao lado do Milton Nascimento no teatro? Não é normal isso.
- Mas aqui no Rio ninguém liga muito.
- Carioca é meio blasé
- Você já tietou alguém na rua?
- Já. Encontrei a Dona Ivone Lara num samba da Lapa e fui dizer para ela que minha mãe me botava para dormir ao som de "Sonho meu". Abracei, beijei, tirei foto.
- Ela gostou?
- Pareceu ter gostado. Outra vez tietei um jornalista que admirava e foi péssimo. Ele só fez dizer: "Ah, tá". Nem famoso era.
- Chato
- Horrível. Me senti uma otária. Um diretor de cinema obscuro uma vez destratou uma amiga minha que se aproximou para elogiá-lo. Pode isso?! Mas tive outras tietagens bem recebidas.  Tietei a escritora Stella Florence por email e, depois de tanto nos correspondermos, ficamos amigas. E, no trabalho, não resisti e pedi para tirar foto com artista: com Renato Aragão, Sidney Magal e Carminha.
- Quem é Carminha?
- Adriana Esteves!
- (risos) ahhhhh - Uma vez fui a uma pré-estreia de filme e o Caetano Veloso sentou-se ao meu lado. Confesso que custei a prestar atenção no filme.
- Por que você não pediu para tirar uma foto com ele?
- Fiquei sem graça. Todo mundo fingindo que o Caetano não era nada demais e só eu ia bancar o deslumbrado?

Eu gostaria de ter dito ao Milton que estava deslumbrada. Que a voz dele é linda, que nos anos de faculdade eu fechava os olhinhos para cantar emocionada as letras de suas músicas nas rodas de violão.... mas respeitei a escolha que ele fez ao se sentar discretamente no fundo do teatro.

Existe um interesse pelos famosos em geral, tudo bem, mas isso é só curiosidade. Estou falando da emoção de estar diante de uma pessoa que não te conhece, um estranho, distante, e que tem tanto a ver com a sua vida! Acho que isso só acontece através da Arte. A música, o teatro, o cinema, a televisão, as artes plásticas, os esportes até! Aproximam as pessoas e fazem com que tenhamos afeto por quem produz coisas tão bonitas. Deve ser isso.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Viajando aos 40


Cuido da minha mala desde os nove anos de idade. Até mais ou menos 20, viajava, em geral, de carro com meus pais, que cuidavam de quase tudo. Então vamos considerar que tenho 20 ou 30 anos de estrada autorizando algumas conclusões.

Começando, como eu comecei, pela MALA:

Nunca, mas nunca mesmo, deixe de levar um casaco e um biquini. Já precisei de casaco em Arraial do Cabo no verão e de um biquini no inverno alemão. O clima é louco e você pode ser surpreendido por uma frente fria ou, como aconteceu na Alemanha, por uma luxuosa piscina aquecida e coberta num hotel pelo qual eu não dava muita coisa.

PLANEJAMENTO:

Você é seu melhor agente de viagens. Se você fala inglês e frequenta a Internet, não tercerize o planejamento. O agente de viagens vai "quarterizar" para uma operadora de São Paulo que vai "quinterizar" para uma operadora local no seu destino. Em 100% das vezes algo dá errado. E durante sua viagem uma delas ainda pode falir! Pesquise em sites confiáveis, mande e-mails, estude, imprima os mapas. Pense que essa é uma forma também de fazer a viagem começar antes mesmo do embarque.

Mas se você vai para o exterior e não fala outros idiomas, não hesite: procure uma boa agência de viagens e se agarre em uma excursão.

DESEMBARQUE:

Não fique perdido no saguão do aeroporto com cara de "socorro, não conheço nada aqui". Em qualquer lugar do mundo você corre o risco de ser abordado por um picareta. Se você não se sente seguro para tomar um táxi, compre um "transfer" antes de embarcar. É mais caro, mas começar as férias se aborrecendo é um prejuízo muito maior.

HOSPEDAGEM:

Na dúvida, escolha uma rede de hotéis americana. Mesmo que simples, os hotéis americanos são limpos. Na República Dominicana fiquei em um 4 estrelas de uma rede espanhola que tinha toalhas rasgadas e banheira manchada. Tá achando frescura? Se falta capricho dentro do quarto do hóspede, pode ter certeza que falta também em outras áreas do hotel. Além disso, na minha casa não tem toalha rasgada. Por que vou nas minhas férias ficar numa situação pior do que a que tenho em casa?

Hotel é caro, mas casa de amigo, só se tiver muita intimidade com ele e com quem quer que more com ele. E por pouquíssimos dias.

Hotel "all inclusive", daqueles em que todas as refeições e bebidas estão incluídas na diária, não vale a pena. Já passei por 3. Em qualquer lugar do mundo, é roubada. Se o pacote todo já está pago, pra que o cozinheiro vai se esforçar?

COM CRIANÇAS:

Meu filho viaja com crachá pendurado no pescoço! Nunca nos perdemos dele e, claro, não solto a mão da criança, etc, etc... mas vamos ser realistas: férias + lugares cheios + 1 segundo de distração e isso pode acontecer.

O CAFONA NÃO EXISTE:

Você vai ouvir de amigos mais viajados que, por exemplo, assistir a troca da guarda no Palácio de Buckingham é cafona ou que perder tempo em Paris indo a Eurodisney é um ultraje. Ou ainda que você não deve ir a um determinado show porque é "muito para turista". Você é turista. O dinheiro é seu, o tempo é seu e o desejo também.


Now boarding.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Um Natal para chamar de meu



Eu já disse que não gosto de dezembro, contei meus traumas de aniversariar neste mês e, apesar de ter nascido no início oficial do verão, não tenho apreço pela estação. Estou preparando seu espírito para dizer que o Natal é um problema e ganhando tempo para pensar em como fugir de mais um post rabugento.

Então vamos fazer um inventário desses 40 Natais para ver o que sobra.


Passei a maioria deles na fórmula clássica: vovô, vovó, tios e primos, quando a família ainda se reunia. Esse é o Natal mais maravilhoso que existe. Contava os dias para que ele chegasse. Sabia que eu iria rir, brincar, ser abraçada, beijada, ganhar presente, assistir ao especial do Roberto Carlos na TV e ficar feliz. E ainda existia um Papai Noel que desfilava depois da meia noite em carro aberto pelas ruas da Tijuca. Era uma loucura! Ele vinha de longe tocando um sino e a gente corria para a janela. Esse homem não faz idéia de quanta emoção ele me trazia, mesmo quando eu já sabia que ele não estava chegando do Pólo Norte. 


Quando este Natal não foi mais possível - e para muita gente não é - a noite mais importante do ano virou um problema. Resolvi me desapegar da data, mas não é fácil e saí por aí procurando um Natal para chamar de meu. Passei a Noite Feliz sozinha numa vila de pescadores na Bahia, passei dançando forró em Fernando de Noronha, já passei o Natal a dois em Paris, trabalhando de plantão, com amigos de 4 estados diferentes perdidos no Rio, dentro de um avião dormindo, apenas com meus pais, em petit comité com meu marido e meu filho.


Nenhum deles é bom como o Natal da minha infância na casa dos meus avós. Mas se a noite mais importante do ano não pode ser completa, que ela seja verdadeira. Para quem é cristão, que o Natal aqueça seu coração e renove sua fé na humanidade. E para quem curte a festa em família, meu desejo de que hoje não haja falsos sorrisos, constrangimentos no amigo oculto, nem terapia de grupo depois da bebedeira.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O mundo vai acabar no meu aniversario e isso não me espanta



Sabe por quê? Meu aniversario sempre foi uma bosta. Já gastei muito dinheiro na terapia falando disso, mas acho que você tem que saber o que sofre uma pessoa que nasceu em dezembro e concorre com Natal, réveillon, shoppings bombando, praia, festa de amigo oculto, início das férias...

Imagine o que é ter 5 anos e não poder comemorar seu aniversario porque os amiguinhos da escola já entraram de férias e se dispersaram por aí.

Imagine o que é ter 7 anos e ganhar apenas um presente de aniversário e Natal com a desculpa de que "é um presente só, mas é um presente bom". Cacete! Presente bom são dois, como ganham as outras crianças.

Imagine o que é ter 10 anos, viajar com a família no dia do seu aniversário e ninguém se tocar de que você está há horas muda no banco do carro porque só você sabia que dia era aquele.

Imagine o que é ouvir todos os anos que seu aniversario cai numa época péssima. Desde já peço desculpas a todos. Eu ju-ro que não sou responsável por isso.

Imaginou? Pois é. Tem mais.

Já trabalhei onde eu passava o ano organizando os aniversários de todo mundo e ninguém se lembrava do meu. Já trabalhei onde existia um quadrinho - preenchido periodicamente - com os aniversariantes do mês e em dezembro ele ficava em branco.

Já tentei produzir uma festa 2 meses antes e ouvi de uma profissional do mercado:"tá louca!? Festa em dezembro tem que planejar um ano antes". Já pedi ajuda para uma comemoração caseira e ouvi: "mas essa data é tão inconveniente para os convidados..." É sim. Mas a maior inconveniência é para mim, pode ter certeza.

Os aplicativos de calendário eletrônico e as redes sociais amenizaram um pouco isso. Fazem, pelo menos, com que as pessoas se lembrem. Mas continuo detestando aniversário em dezembro. O fim do mundo pode ficar com o próximo dia 21 porque eu quero transferência para abril.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Odeio dezembro


Odeio dezembro. E seu calor desrespeitoso. Seu trânsito travado, sua impaciência querendo que o ano acabe logo, suas vitrines com falsas promoções e essa insuportável obrigação de ser feliz.

Dezembro é um mês em que nada se resolve: o aumento que você pediu ao seu chefe não vai sair, a poltrona que você comprou não será entregue na data marcada e o marceneiro que prometeu que viria fazer um orçamento não vai aparecer. Dezembro só serve para adiar as coisas.

Em dezembro nada fica, nada se perpetua. "Ah, deixa isso para o ano que vem". Já deixei a troca do tampo da mesa, a apuração sobre o curso de italiano e a visita ao ginecologista.

Dezembro praticamente não existe. Não há vaga para estacionar, não há mesa nos restaurantes por causa das ruidosas confraternizações de fim de ano, não se consegue horário na manicure, na massagista, na tinturista, na limpeza de pele... E você acaba recorrendo a um profissional que não é o de sua predileção e se aborrecendo. Dezembro é um mês meio errado.

É um mês pela metade. Em dezembro ninguém te escuta, ninguém te olha. As pessoas correm para as apresentações de balé dos filhos, o amigo oculto do trabalho, a prova no curso de inglês... Para entregar o ano como concluído no dia 15, quando sai o 13o salário. Aí é a hora de comprar, comer, brigar, se aborrecer, ouvir o que não quer, fingir que não percebeu... A isso chamamos Natal. Mas isso é outro post.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Mulher não cede passagem




Ligou a seta do carro? Quer trocar de pista? Se o carro na sua diagonal traseira esquerda for dirigido por uma mulher, você não vai passar. Ela vai acelerar só para você não passar. Se você insistir e ameaçar embicar o carro, ela vai buzinar, abanar o braço e não vai te deixar passar. É uma questão de honra. Hoje aconteceu comigo duas vezes, quando tentei trocar de pista. E sou mulher também, hein? Mas acho que elas nem repararam nisso.

O problema é que as pessoas descontam na direção as frustrações do dia-a-dia. Atrás do volante, infelizmente, para muita gente, é o único momento do dia em que se pode parar para pensar um pouco. E aí vem a raiva, a frustração, a humilhação, a sobrecarga... e ela não vai te deixar passar porque agora precisa pensar nela. Assim, no trânsito, a doçura femina se resume a nada.

Tô falando de nós mulheres porque, em geral, somos mais inseguras e, sinceramente (ok, lá vem o apedrejamento) acho que isso se reflete no trânsito. Mas a insegurança masculina também está representada, claro, nas nossas ruas, vias e avenidas. Um carrão também é uma maneira de disfarçar atributos que lhes faltam.

Falando em carrão, vejam que exemplo louco de como as pessoas usam o carro para se relacionar com o mundo. Conheço uma mulher que dirige um carro enorme, dessas jamantas importadas e só consegue estacionar em uma das vagas da garagem do prédio dela. A motorista em questão tenta convencer o condomínio a destinar com exclusividade aquela vaga para ela. E... tipo... comprar um carro menor?! Meu Deus! A pessoa não sabe manobrar e compra o maior carro do mercado! Essa, além de não dar passagem, não usa os retrovisores! Não enxerga ninguém. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Magras e cegas



Li três guias de estilo. Fiquei curiosa com relação a um deles, ganhei outro de presente... e um terceiro chegou à redação em que trabalho. Li os três. Acho que sempre se aprende algo novo com quem tem um olhar treinado. O problema é que o mercado da moda, em alguns momentos, se descola da realidade de uma forma espantosa. 

Algumas recomendações desses guias me insultam barbaramente. E saí em busca de explicação. Só encontrei uma: as autoras são magras. De uma delas vi a foto no próprio livro, das outras fui pesquisar no Google. Magras! Amigas de magras, trabalham com magras e falam para magras. 

Se eu tenho raiva de magra? Não, tenho inveja. Ser magra, tudo bem. O problema é ser cega e não enxergar o que o mundo da moda não devia desprezar: a maioria das mulheres tem sobrepeso.

Nos 3 guias que li as autoras adoram dizer que compram camisetinhas descoladas em loja de criança. "A tamanho 14 anos fica perfeita em mim". Oi!? "Camiseta branca básica de malha bem justinha toda mulher tem que ter e as melhores são das lojas infantis". Gente, pára a leitura que eu quero descer! Além de conhecer poucas mulheres que cabem numa camiseta 14 anos, qual é a mulher depois do 30 que tem condição de usar camiseta branca bem justinha!?

Duas das autoras aconselham a leitora a guardar todos os sapatos fora das caixas para poder visualizá-los. Mas quem guarda sapato em caixa? Você convive com alguma assalariada que tenha armário ou closet suficientemente grande para guardar os sapatos em caixa? Me fala.

Outro guia de estilo dos que folheei, sugere com fotos "looks" montados com uns trapinhos "que qualquer um tem em casa": short desfiado, blusa manchada e tênis velho. Isso só é bacana na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde o povo adora fazer o gênero "peguei no armário e nem olhei". Devo informar que em outras regiões da cidade e no restante do país ninguém acha bonito andar assim.

E nas fotos de todos os guias, as pessoas "flagradas" na rua usam manequim 36, 38. Quero ver montar “look” pra gente normal, que veste 42 e 44. A ultima vez que entrei num manequim 38 eu devia ter 15 anos. Façam coisas para o meu tamanho e depois venham falar comigo.

sábado, 17 de novembro de 2012

Não fale com estranhos


Este post é para o taxista, que não entendeu que ontem à tarde peguei um táxi porque não queria me aborrecer no trânsito, nem procurando vaga. E que eu estava torcendo por 20 minutos em que pudesse ficar sozinha com meus pensamentos. Moço, eu respondi monossilabicamente a todas as suas tentativas de puxar conversa. Como taxista, o senhor deveria entender que é um sinal de que o passageiro quer ficar quieto. Estou pagando pelo o que deveria ser um pouco de sossego. No restante do dia, sabe, eu só tenho tranquilidade quando estou dormindo. Trabalho com muita gente, tenho um filho pequeno, uma empregada nova que faz muitas perguntas...

Esse post também vai para a senhorinha que se sentou ao meu lado no ônibus, sábado, quando voltei da praia. Meu marido e meu filho estavam num passeio de meninos e eu queria aproveitar para ver a paisagem da cidade tranquilamente. Queria ver o entra-e-sai, os rostos, ouvir pedaços de conversa que não me dizem respeito. Eu não queria, minha senhora, por mais respeito que tenha por sua idade, saber da sua diabetes e ver fotos dos seus netos que, pelo jeito, não lhe dão atenção. Eu não queria ter que lhe responder qual o meu nome, o que faço e onde moro. Menti nas 3 perguntas que a senhora me fez. A senhora também não devia abrir a bolsa dentro do ônibus, para uma pessoa estranha, e mostrar seu celular novo. Primeiro porque é perigoso e, segundo, porque eu não queria ver. Levantei dizendo que ia saltar, mas menti pra senhora, de novo. Fui sentar lá no fundo, escondidinha, para ficar em silêncio. Me desculpe, percebo que a senhora está sozinha, mas  era exatamente o que eu buscava: ficar sozinha. 

Esse post é para a mulher que insistiu em falar comigo durante o seminário em São Paulo. Agora não, moça. Eu peguei um avião para vir aqui, ouvir as pessoas que estão na listinha que você recebeu também. Não fale comigo. Estou tomando notas e você está me atrapalhando. Não sei quem é você, não quero saber, não estou interessada na sua opinião. Por isso vou me levantar e, sem dar qualquer explicação, vou trocar de lugar. Com certeza você vai atacar a concentração do próximo que sentar-se a seu lado.

Esse post é também para um menino de 12 anos que enche meu saco querendo me adicionar no Facebook porque ele acha legal ser amigo de jornalista. Pediu 3 vezes. Na primeira, ignorei. Na segunda, expliquei candidamente que eu só aceitava pessoas que conhecesse pessoalmente e menores, somente se conhecesse os pais também. Hoje, quando pediu mais vez, depois de (arrrgh) me cutucar, fiquei com vontade de dizer: garoto, vai brincar com alguém da sua idade. Lamento que você tenha pais que permitam que você adicione estranhos ao seu perfil. Lamento que eles te exponham a esse risco. Lamento que eles não tenham te ensinado o que parece loucura nos dias de hoje, mas não fale com estranhos! 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Porque não uso fone de ouvido 2




Vejam o que eu teria perdido se andasse pela rua com fones enfiados nos ouvidos! 


Fila no caixa das Lojas Americanas. Duas mulheres aparentando entre 25 e 30 anos. Loiras. Lisas. Segurando cestinhas repletas de produtos de cabelo.

Loira 1 - Acho que a gente tá levando muita coisa, não? Será que preciso desse aqui?
Loira 2 - Leva sim. É excelente já usei.
Loira 1 - Esse outro? É tão caro...
Loira 2 - Mas tá muito mais barato que nos outros lugares.
Loira 1 - E esse? Por que a gente tá levando esse também?
Loira 2 - É lançamento. Cabelo adora novidade.

(pausa dramática) 


Loira 2 - Olha, cabelo a gente tem que cuidar. Sabe por que? É muito olho! Cabelo liso cai de tanto que as outras mulheres olham. Quantas pessoas você conhece que tem cabelo bom de verdade como o nosso? Você anda na rua e as outras te olham "secando", vai por mim. Tem que cuidar!

Neste momento as duas percebem que havia alguém logo atrás, se viraram e deram de cara comigo - cabelo curtinho e meio ruinzinho. Fiquei com vontade de dizer: fiquem tranquilas. Só estou escutando a conversa.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Letra A do caderninho



Se você, assim como eu, se chama Ana, ou Adriana, Amanda, Angélica, Alice... E é da geração pré-Facebookeana, saberá do que estou falando. Um dia, do nada, um ex-namorado ou ex-ficante te telefona, começa uma conversa sem sentindo, com um gancho mal escolhido, e, meio titubeante, te faz algumas perguntas enquanto você se espanta com o tempo que passou sem que tivesse notícias dele. 

De onde apareceu esse sujeito? Faz dois anos que terminou com você... Ele nem se importava muito... Te deu um pé na bunda sem nenhuma classe... Que coisa mais estranha ele ligar agora, dizendo que se lembrou de você no ultimo Dia de Finados por causa da morte da sua avó 3 anos antes... E que a amiga da mocinha da novela das 6 se parece com a sua prima de Piracicaba. Por que ele quer saber onde você vai passar as férias ou se você foi à praia na semana passada?

Neste ponto, Adelaide, você acessa o arquivo-morto no seu HD pessoal para tentar determinar com exatidão de que capítulo da sua história saiu aquele sujeito. E você precisa recuperar alguns detalhes cruéis porque suas pernas tremeram ao ouvir a voz dele. Você foi pega desprevenida, Abgail, calma. Apesar do susto, a situação está sob controle. 

Você dispensa ele, Ágda, desliga o telefone e leva um tempo até concluir que: é sexta-feira à noite, ele está sozinho e com preguiça de ir para a noite garimpar. Essa esparrela toda era para saber se você está disponível. Ele tem a lembrança de que você é legalzinha e levemente desencanada. Ele acha que vai poder te dar o fora de novo sem que você se jogue na frente de um caminhão ou até que conseguirá um namorico sem compromisso porque você é metida à moderna e resolve seus dramas sozinha e sem exposição.

"E por que ele se lembrou de mim"? Ele NÃO se lembrou de você, Alcione! Você estava na letra A do caderninho, Andréa! Ele poderia ter ligado para a Alicia ou para a Arlete, Alessandra ou  Anita. Simples assim. Ele abriu o caderninho e telefonou. Talvez antes tenha tentado alguém que não atendeu. 

Se você tem mais de 30 anos  e seu nome começa com A, é muito provável que tenha passado por isso. E é bem provável que depois de levar um fora, ele tenha dito: "beleza, então depois a gente se fala". Não sofreu, não se frustrou, não se abalou nem esticou a conversa. Precisava tentar outro nome antes que ficasse tarde para sair.

Depois vieram as redes sociais, o status de relacionamento e tenho a impressão de que a ordem alfabética perdeu a prioridade na procura.

domingo, 28 de outubro de 2012

Não guardo rancor, mas tenho memória


Ainda se usa chamar alguém de canalha? Aquela pessoa sem moral, desonesta, patife, infame, velhaca, biltre... enfim. Na ficção o canalha sempre foi homem. Mas na realidade sabe-se que pode ser também mulher. É possível que o formato e a apresentação do canalha tenham mudado nessa era de casamentos abertos e novas composições familiares, mas uma coisa é certa: o canalha – o legítimo - não tem limites. Nelson Rodrigues avisou.

Se você é homem é possível que tenha escapado de ser vítima de uma canalhice. Se você é mulher, não. Eu fui reincidente. Escorreguei em um deles e, embora tenha reconhecido os sinais no segundo, não resisti. Isso faz muitos anos.

Pois bem. No ano de seu centenário, Nelson Rodrigues resolve me provar que estava certo e me faz descobrir que o pior cafajeste com quem me meti escreve livros infantis. Isso mesmo: livros infantis. Como pode alguém que mente e se aproveita dos sentimentos de uma pessoa apaixonada querer ensinar algo de bom a uma criança? Dar exemplo? Lição de moral?

Queria poder denuciar esse cara à editora dele, à Comissão Nacional de Direitos Humanos, ao Unicef, sei lá! E não me venha com papinho de que as pessoas mudam. Não era bobeira de adolescente. Já éramos adultos. Ele não se arrependeu. Ele não pediu desculpas. E ele fez o mesmo com outras pessoas.

Não guardo rancor, mas tenho memória. E me espanta a cara de pau!

O outro canalha com quem me meti alisa o cabelo. Para esse não preciso planejar vingança, né? Tá liberado.